quinta-feira, 3 de junho de 2010

RECEITA PARA SER DEUS

RECEITA PARA SER DEUS

Da leitura que fiz deste texto, organizado originalmente de maneira diversa da que ora apresento, numa ousadia que me permiti tomar, no sentido de fazer possível o entendimento ao profundo ensinamento apresentado, restou-me demasiado incômodo. Incomodou-me ver até então ausentes de minha vida alguns pontos que entendo como desejáveis à conduta humana.
O pressuposto básico na apreensão de conhecimentos passa obrigatoriamente pela capacidade de metabolizar. Como um organismo vivo que somos, e ai antecipo um princípio deste texto, de que a tudo somos análogos a natureza, devemos rejeitar os excessos e absorver a essência.
A imperfeição a que estamos sujeitos pela falibilidade humana não nos permite realizar esta desejável conduta na plenitude a que se refere e aconselha o autor. O imaginável, e mais vez recorro ao princípio da razoabilidade, é que a prática de tais anti-condutas obedeçam a um critério de mais valia; que possamos, no nosso dia a dia, ao praticá-las, ferirmos o menos possível ao outro, na realização destes desejos subjetivos a que estamos todos condenados. É como se devêssemos dar certo grau de prioridade à estas ditas condutas ao critério pretendido.
Por certo não nos levará o texto, a nenhum de nós, à divindade pretendida pelo tema; é certo, entretanto, que tais ensinamentos, na última das hipóteses, se seguidos, tornarão possível por absoluta razoabilidade, aproximar na medida da permissibilidade divina, Criador e criatura.
Bom proveito !
Pedro Paulo Buchalle.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
RECEITA PARA SER DEUS

Pitágoras
“. . .
Honra primeiramente os deuses imortais, conforme o grau de preeminência, que tem destinado a lei às suas hierarquias.
Respeita com igual observância o juramento; depois venera os heróis cheios de bondade e de luz;
Rende também a mesma veneração aos gênios ou jinas subterrâneos, dando-lhes o culto, que legitimamente lhes é divido.
Honra com semelhante obsequio a teu pai, e a tua mãe e a teus parentes mais chegados.
Entre a multidão dos outros homens, tu, com a tua virtude, faze-te amigo de todo aquele que por ela mais se distingue. Cede sempre às suas brandas advertências e relevantes ações.
E não te ponhas logo, por qualquer leve falta, mal com teu amigo, enquanto puderes, porque o poder mora junto com a necessidade.
Sabe pois que assim te incumbe observar estes preceitos, mas vai contraindo hábitos de vencer as paixões.
E primeiro que tudo a da gula, e do sono, também a da concupiscência, e da ira. Nem jamais cometas ação alguma torpe, nem com outrem nem contigo só em particular; e sobretudo peja-te de ti mesmo.
Em conseqüência disto, assim nas tuas mãos, como nas tuas palavras, costuma-te a praticar a justiça e a não te portares em coisa alguma com imprudência.
Mas faze sempre esta reflexão, que decretado está pelo Fado a todos o morrer: é que os bens da fortuna se costumam efetivamente umas vezes adquirir, outras perder.
No tocante ao grande número de misérias da vida, que os mortais padecem por divina fortuna, já que é força e te caiba delas por sorte alguma parte, sofre-as todas com ânimo resignado e não te mostres impaciente.
O que porem te importa fazer é sanear a quebra dessas desventuras, o quanto estiver na tua mão, e nestes termos considera: que o Fado nem por isso permite que sobre as pessoas de bem venha grande tropel destas calamidades.
Ora ouvem-se fazer entre os homens muitos discursos, uns bons, outros maus por cuja causa nem te acovardes no exercício da virtude, nem te deixes acaso apartar do teu medo de viver; mas se porventura se proferir alguma falsa proposição, arma-te da paciência, usando com todos de brandura.
Cumpre à risca em tudo e pó r tudo com a máxima que te vou já inculcar:
Ninguém te arraste, nem por palavra, nem por oba, de modo algum.
Consulta e delibera sempre antes de obrar, para que não chegues a por em execução algumas ações ineptas e temerárias. Porquanto é de homem eslidamente desgraçado não só obrar se não também falar sem tento, nem consideração.
Mas tu nada efetuas sem antes coisas algumas tais que ao depois te não sirvam de tormento.
E não te metas a fazer coisa alguma das que não sabes; mas aprende tudo quanto cumpre saber e, deste modo, passarás uma vida mui alegre e deleitosa.
Nem é justo, quanto ao penso do corpo, haver descuido na conservação da saúde dele; mas importa guardar uma justa mediana tanto no beber como no comer e nos exercícios.
Dou pois o nome de mediana a tudo aquilo que te não causar moléstia nem aflição.
Costuma-te, por isso, a ter um tratamento asseado sim e decente, mas sem delicadeza nem luxo.
E guarda-te muito de fazer qualquer daquelas ações que trazem consigo a repreensão e vitupério de todos os homens.
Não faças gastos fora do tempo, como quem esta muito alheio ao decoro, nem tão pouco sejas mesquinho, pois por onde a mediania em todas as coisas é ótima.
Assim que fazem só aquelas coisas que te não prejudicarem e considera as bem, antes de as pores em obra.
Nem dês entrada ao sono em teus lânguidos e cansados olhos se não depois que examinares a consciência, discorrendo por cada uma das ações daquele dia: em que matéria transgredi ? E que fiz eu ? Que obrigação indispensável deixou de ser por mim cumprida ?
E começando desde a primeira, continua com o exame até a ultima de tuas ações; e depois, no caso que tenhas obrado mal, repreende-te e, se bem, regozija-te; nestas coisas trabalha, nestas medita, nestas convém que empregues o teu amor.
Todas elas te sublimarão a dirigir teus passos pelos vestígios da virtude divina.
Sim, eu to afirmo e juro por aquele que deu à nossa alma o conhecimento do Quaternário, fonte de sucessiva natureza. Mas põe só mãos a esta grande obra depois de teres pedido aos deuses que te ajudem a levar ao fim o que vás empreender, tendo-te já prevenido e corroborado com estes requisitos : conhecerás tanto dos deuses imortais, como dos homens mortais as hierarquias até onde não só cada um dos mencionados entes se estende, mas ainda até onde se limita.
Conhecerás também, segundo a Lei de Deus supremo, ser em tudo análoga a Natureza, de maneira que nem tu viras a conceber esperança do que não é para esperar, nem para ti será incógnita coisa alguma deste mundo.
Conhecerás igualmente que os homens padecem os males, a que estão sujeitos, por sua própria escolha. Desgraçados homens, que não reparam nos bens que têm à mão, nem ouvidos lhe querem dar; e assim poucos chegam a saber livrarem-se dos seus males.
Tal é a sorte que cega os entendimentos dos mortais, que por isso eles, à maneira de cilindros, rodam de uns para outros vícios, padecendo calamidades sem fim. Porquanto aquele pernicioso combate, que a todos acompanha e com todos nasce, é o mesmo que, sem eles por isso atentarem, os traz enfatuados e perdidos.
Combate que não convém atiçar, mas sim cada um fugir dele cedendo à razão.
De quantos males por certo livrarias, ò Júpiter, Pai Soberano, a todos os homens no caso que a todos fizessem conhecer de que demônio eles se servem!
Tu porem cobra grande animo, visto ser divina a prosápia dos mortais a quem a sagrada Natureza, infundindo-lhe, manifesta cada uma das coisas respectivas ao próprio conhecimento.
Das quais se de modo algum te achas participante, chegaras a conseguir o pretendido fim das máximas que te prescrevo : depois de teres curado a indisposição das paixões, livraras a tua alma de todos os trabalhos e moléstias.
Mas abstém-te dos manjares que nós temos proibido, tanto nas purificações, como no livramento d’alma, discernindo entre uns e outros; e pondera bem cada um destes preceitos, constituindo a razão mais adequada por cocheiro para ter de parte superior as rédeas da carreira de tua vida.
E se depois de te veres já despojado do corpo, chegares à pura região do etéreo assento, será um Deus imortal, incorruptível e nunca mais sujeito, daí por diante, à jurisdição da morte.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Afinidade & Necessidade: A regra da Igualdade desmistificada.

Afinidade & Necessidade: A regra da Igualdade desmistificada.

Por Pedro Paulo Buchalle
M.’. M.’. Loja Fir.’. e Har.’. Santarena n°. 17


Duas únicas razões, juntas ou separadamente, é que justificam as relações: A afinidade e a Necessidade.

De acordo com a língua portuguesa, tecnicamente, afinidade significa Relação, semelhança, analogia; semelhança entre duas ou mais espécies; conformidade, identidade, igualdade: afinidade de gostos. Tendência combinatória; coincidência de gostos ou de sentimentos. Necessidade, diferentemente, têm-se inclusive a sensação de opostos, significa qualidade ou caráter de necessário. Aquilo que é absolutamente necessário; exigência; aquilo que é inevitável, fatal; aquilo que constrange, compele ou obriga de modo absoluto; privação dos bens necessários; indigência, míngua, pobreza.

A princípio não temos escolhas, por regra geral; nascemos e não pedimos isto. A família que nos constitui não é a nossa escolha de pai, mãe, irmãos e todos os graus de parentescos conseqüentes, e, mesmo na família, onde os laços de consangüinidade deveriam definir relacionamentos iguais, temos, por escolha natural, aqueles com quem devotamos maior ou menor afinidade . Daí por diante estamos, sempre, submetidos a algumas relações necessárias e outras que por afinidade que descobrimos no curso destas ditas .

Nossos vizinhos são contingências necessárias; mas elegemos entre estes aqueles com quem vamos relacionar-nos mais freqüentemente. Na empresa, na escola, no transporte público que fazemos uso todos os dias, enfim, este binômio há de estar presente sempre em nossas relações.

Na maçonaria não seria diferente. Somos todos irmãos. Somos todos regidos por laços fraternos onde a trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade é o tripé que, por conceito, nos identifica. Mesmo assim, com a igualdade prevalente, temos aqueles com quem mais nos identificamos e daí criamos relacionamentos afetivos que ultrapassam o limite da instituição.

Este tripé, entretanto, como conceito, deve ser entendido com razoável análise de prevalência, no sentido de se evitar o simplismo e cometermos o desleixo intelectual de concebermos conceitos diversos daqueles a que por princípio foram aplicados.

A propósito da IGUALDADE vale lembrar o pensamento vivo de Rui Barbosa, que foi iniciado maçom na Loja AMÉRICA, a 1º. de julho de 1869 em Salvador, no qual desmistifica-se a visão pueril do vocábulo, dando-lhe a abrangência e compreensão necessárias à sua boa e justa aplicação no mundo profano e maçônico. Vejamos, então, a harmonia da IGUALDADE na convicção conceituado de nosso amado irmão RUI BARBOSA, ao discursar na célebre “Oração aos Moços”, que trata-se de um discurso escrito, pois convidado em 1920 para paraninfo da turma de direto da Faculdade de Direito de São Paulo, aos formandos, como não pode estar presente na cerimônia de formatura, deixou seu texto para ser lido.

. . .“Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar.

A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo não dar a cada um na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.

Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direitos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria.
Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho”.

Devemos, pois, a partir desta premissa de inigualável saber divino, social, humanitário, jurídico e maçônico, mensurar com mais acuidade nossas posições enquanto executores por excelência da bondade; enquanto promotores da justiça fraterna; enquanto oradores de púlpito de nossas convicções maçônicas.

Esta necessidade de melhor compreender o outro, dadas as desigualdades naturais, e necessárias a condição de indivíduo ( o que torna cada um de nós únicos ) que somos, é que põe à prova este real espírito maçônico a que estamos obrigados, todos os iniciados, aos sermos escolhidos maçons e livremente termos aceito esta condição. Mesmo assim, escolhidos, e por livre e espontânea vontade aceitos, no seio de nossas lojas, na intimidade de nossas convicções, nossas relações ainda vão estar sujeitas ao binômio necessidade & afinidade. Estamos ligados pelos juramentos; estamos sujeitos a Constituição para o “dever ser” que é o sujeito ativo da obrigação de fazer, que é princípio constitucional a que estamos obrigados, preferencialmente, ao dever do tratamento assistencial, cavalheiro, cordial, generosos e carinhosos com todos os nossos Ir.’., Cun.’. e Sob.’. e que por regra geral se aplica a todos os homens, na visão teleológica do G.’. A.’. D.’. U.’..

Entretanto, nossas relações de carinho e afeição aos mais desenvoltos pelo estudo e aprimoramento do saber maçônico, estas, ultrapassarão os limites físicos da Sala dos Passos Perdidos, no Templo, e estarão presentes no cotidianos do seio de nossas famílias profanas e no dia a dia de nossas atividades, onde, verdadeiramente a MAÇONARIA é exercida em sua plenitude.

T.’. F.’. A.’.